Dr. Inácio Ventura

Hidrogel bioativo, ácido hialurônico ou PRP: qual escolher para artrose?

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Quando o assunto é infiltração para artrose, uma dúvida aparece cada vez mais no consultório: entre ácido hialurônico, hidrogel bioativo e PRP, qual é a melhor opção?

Hoje existem alternativas diferentes, com características próprias e possibilidades interessantes de tratamento. Mas escolher entre elas não significa simplesmente procurar o produto mais novo ou mais caro.

O resultado de uma infiltração depende de um conjunto de fatores: diagnóstico correto, indicação adequada, escolha do produto, técnica de aplicação e experiência do médico que realiza o procedimento.

Por isso, a pergunta mais importante não é apenas “qual produto é melhor?”, mas qual tratamento faz mais sentido para aquele paciente.

O que muda entre ácido hialurônico e hidrogel bioativo?

O ácido hialurônico é utilizado há muitos anos como opção de viscosuplementação. Sua aplicação intra-articular pode contribuir para redução da dor e melhora da função em pacientes selecionados com osteoartrite do joelho. Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios randomizados publicada em 2024 encontrou benefício do ácido hialurônico sobre a dor em determinados períodos de acompanhamento.

Existem diferentes formulações de ácido hialurônico, com concentrações, pesos moleculares e características próprias. Isso significa que falar simplesmente em “ácido hialurônico” engloba produtos diferentes entre si.

Algumas formulações de hidrogel são produzidas a partir de derivados modificados do ácido hialurônico e apresentam comportamento físico diferente das formulações convencionais.

Um exemplo estudado é o HYADD4, utilizado na formulação do HYMOVIS®. Pesquisas demonstram propriedades reológicas e viscoelásticas específicas desse hidrogel, relacionadas à estrutura modificada do ácido hialurônico.

Na prática, são características que tornam determinados hidrogéis uma opção tecnicamente interessante dentro da viscosuplementação.

O hidrogel tem outras propriedades além da viscosuplementação?

Esse é um dos pontos que tornam essas formulações especialmente interessantes.

Estudos laboratoriais com derivados HYADD identificaram atividade inibitória sobre metaloproteinases e hialuronidases, enzimas envolvidas na degradação de componentes da matriz extracelular. Esses achados sugerem propriedades biológicas que podem ir além do efeito puramente mecânico da viscosuplementação.

Outro campo estudado é o menisco.

Em um ensaio clínico randomizado com pacientes com lesões meniscais degenerativas, o tratamento com um hidrogel derivado do ácido hialurônico esteve associado à melhora da dor e da função e à redução de algumas dimensões das lesões avaliadas por ressonância magnética.

É um dado particularmente interessante porque amplia a discussão sobre o produto para além do simples efeito de lubrificação da articulação.

O hidrogel pode ter efeito prolongado?

Essa é outra característica considerada na escolha do tratamento.

Algumas formulações foram desenvolvidas para apresentar comportamento mecânico e viscoelástico específico dentro da articulação, e estudos clínicos demonstram manutenção da melhora sintomática durante vários meses.

Em um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 com 347 pacientes com osteoartrite do joelho, uma única aplicação de HYMOVIS ONE apresentou melhora de dor, rigidez e função mantida até 26 semanas.

Na prática clínica, o tempo de resposta pode variar de paciente para paciente. O produto utilizado, o grau da artrose, o nível de atividade e as características individuais também entram nessa equação.

Se o hidrogel tem vantagens técnicas, por que não utilizar em todos os pacientes?

Porque o produto mais sofisticado não é necessariamente a melhor escolha para todo mundo.

O ácido hialurônico convencional continua sendo uma alternativa importante. Existem pacientes que apresentam uma resposta muito boa e permanecem satisfeitos por períodos prolongados.

Além disso, existe a questão do custo.

Na minha prática, considero também a relação entre o benefício esperado e o investimento necessário. Se um bom ácido hialurônico pode atender ao objetivo daquele paciente com um custo menor, não existe motivo para indicar automaticamente uma opção mais cara apenas porque ela é mais nova.

Em outros pacientes, pelas características da artrose, pelo perfil de atividade, pela resposta aos tratamentos anteriores ou pelos objetivos terapêuticos, um hidrogel pode fazer mais sentido.

Individualizar é mais importante do que simplesmente escolher o produto mais sofisticado.

E onde entra o PRP?

PRP significa plasma rico em plaquetas.

Ele é diferente do ácido hialurônico e do hidrogel porque é um produto biológico autólogo, preparado a partir do sangue do próprio paciente.

Após a coleta, o sangue passa por processamento para obtenção de uma fração com concentração de plaquetas acima dos níveis basais. Essas plaquetas estão associadas à liberação de fatores de crescimento e outros mediadores envolvidos em processos biológicos de reparo e cicatrização.

O PRP vem sendo estudado há anos na ortopedia e na medicina esportiva.

Na osteoartrite do joelho, estudos clínicos mostram que ele pode contribuir para melhora da dor e da função. Meta-análises recentes de ensaios randomizados também encontraram resultados favoráveis ao PRP em comparação ao ácido hialurônico em determinados desfechos e períodos de acompanhamento.

O PRP agora é regulamentado no Brasil?

Sim. Essa é uma mudança recente e importante.

Em 15 de julho de 2026, entrou em vigor a Resolução CFM nº 2.464/2026, que regulamentou o uso do PRP como procedimento médico adjuvante para algumas condições osteomusculares.

Entre as indicações previstas pela resolução estão:

  • osteoartrite do joelho;
  • reparo meniscal;
  • epicondilite lateral do cotovelo;
  • discopatia lombar.

A norma também determina que a indicação seja precedida de diagnóstico, avaliação clínica individualizada e definição dos objetivos terapêuticos.

Outro ponto importante é que o médico responsável deve possuir capacitação compatível com a doença tratada, a técnica utilizada, a região anatômica abordada e o manejo de possíveis complicações.

O PRP deve ser entendido como parte de uma estratégia de tratamento. A própria regulamentação não permite que ele seja apresentado como garantia de cura, regeneração assegurada ou superioridade universal.

PRP e ácido hialurônico podem atuar de forma complementar?

Essa associação também vem sendo estudada cientificamente.

A lógica é interessante porque os dois tratamentos apresentam características diferentes: enquanto o ácido hialurônico possui propriedades mecânicas e viscoelásticas, o PRP fornece uma concentração de plaquetas e mediadores biológicos.

Um ensaio clínico randomizado com 105 pacientes com artrose leve a moderada do joelho comparou ácido hialurônico, PRP e a combinação dos dois. O estudo encontrou resultados favoráveis ao PRP e benefícios adicionais da associação em alguns dos desfechos avaliados.

Meta-análises posteriores também encontraram resultados favoráveis à combinação PRP + ácido hialurônico para alguns indicadores de dor e função.

No Brasil, entretanto, a forma de preparo e utilização de qualquer protocolo envolvendo PRP precisa respeitar a Resolução CFM nº 2.464/2026 e as normas sanitárias vigentes. A regulamentação estabelece regras específicas para o processamento do produto e para a adição de outras substâncias.

Produto, técnica e experiência médica: por que tudo isso importa?

Esse talvez seja o ponto mais importante de toda essa comparação.

Você pode escolher um ácido hialurônico de excelente qualidade, um hidrogel com características avançadas ou utilizar PRP e ainda assim não obter o benefício esperado se o tratamento não estiver direcionado para a verdadeira origem do problema.

Antes da infiltração, é necessário entender:

  • De onde vem a dor?
  • Qual estrutura está comprometida?
  • Qual é o grau da artrose?
  • Existe outra causa associada?
  • A infiltração realmente está indicada?
  • Qual produto combina melhor com o objetivo daquele paciente?

É aí que entra a experiência do médico.

Conhecer as diferenças entre os produtos é importante, mas também é necessário dominar anatomia, diagnóstico, indicação e técnica de aplicação.

A própria regulamentação atual do PRP reforça essa responsabilidade ao exigir capacitação compatível com a doença tratada, a região anatômica e a técnica utilizada.

Dependendo da articulação e da situação clínica, a ultrassonografia também pode ser uma ferramenta importante. Ela permite visualizar as estruturas em tempo real e acompanhar o posicionamento da agulha durante o procedimento.

Em um estudo com 99 pacientes com osteoartrite do joelho, a infiltração guiada por ultrassonografia atingiu corretamente o espaço intra-articular em 96% dos casos, contra 83,7% na técnica não guiada avaliada pelos pesquisadores.

E a experiência profissional também pode influenciar a execução.

Em outro estudo, infiltrações de joelho guiadas por ultrassonografia tiveram 100% de precisão tanto para o operador mais experiente quanto para o menos experiente. Já nas aplicações realizadas apenas por palpação, a precisão foi de 100% para o profissional mais experiente e de 55% para o menos experiente naquele modelo estudado.

Esses dados ajudam a mostrar por que a discussão não deve ficar limitada à marca ou ao tipo de produto.

Produto, diagnóstico, indicação, técnica e experiência médica precisam caminhar juntos.

Então, afinal, qual escolher: hidrogel, ácido hialurônico ou PRP?

Não existe uma resposta única.

Se analisarmos determinadas características técnicas, alguns hidrogéis bioativos apresentam propriedades muito interessantes e podem representar uma opção mais avançada dentro da viscosuplementação.

O ácido hialurônico convencional continua tendo espaço importante e pode oferecer uma excelente relação entre benefício esperado e custo para determinados pacientes.

O PRP acrescenta uma abordagem biológica diferente, possui evidências favoráveis em pacientes com osteoartrite do joelho e, desde 2026, conta com regulamentação específica no Brasil para determinadas indicações.

A decisão precisa considerar o paciente, a doença, o objetivo do tratamento e a experiência do profissional responsável pela indicação e pelo procedimento.

Quando procurar avaliação?

Se a dor no quadril ou no joelho está persistindo, limitando caminhadas, exercícios, trabalho ou atividades do dia a dia, vale investigar a causa antes de simplesmente escolher um tratamento.

Nem toda dor articular é igual e nem toda artrose precisa da mesma abordagem.

Uma avaliação adequada permite entender se existe indicação para infiltração e, quando existe, qual opção pode oferecer uma relação adequada entre benefício esperado, segurança e custo para aquele caso.

Mensagem principal

Ácido hialurônico, hidrogel bioativo e PRP são ferramentas diferentes.

O hidrogel pode oferecer características físico-químicas e biológicas interessantes. O ácido hialurônico continua sendo uma alternativa importante e consolidada. O PRP acrescenta uma abordagem biológica e ganhou uma nova regulamentação no Brasil em 2026.

Mas nenhum produto trabalha sozinho.

Um bom tratamento começa com diagnóstico preciso, passa pela escolha adequada do produto e depende também da indicação, da técnica e da experiência de quem realiza o procedimento.

Se você tem artrose ou dor persistente no quadril ou no joelho e quer entender quais opções fazem sentido para o seu caso, uma avaliação individualizada pode ajudar a definir o caminho mais adequado.

Nota: Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação de tratamento devem ser realizados de forma individualizada.

Assista também ao vídeo sobre o tema

Assista ao vídeo explicativo do Dr. Inácio Ventura sobre as indicações, diferenças e como é feita a escolha individualizada entre hidrogel, ácido hialurônico e PRP para artrose.

Capa do vídeo - Hidrogel bioativo, ácido hialurônico ou PRP: qual escolher para artrose? — Dr. Inácio Ventura
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Dr. Inácio Ventura

Especialista em cirurgia do Quadril e Joelho. CRM DF 16921 / RQE 8387 / TEOT 11571 | CRM SP 222230 / RQE 93369. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

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